Como uma criança de dez anos pode descobrir como um foguete chega à Lua? Com alguns cliques, ela encontra respostas, imagens e possibilidades que antes exigiriam horas de pesquisa. Mas, diante de tanto conhecimento disponível, surge uma pergunta ainda mais importante: como despertar nessa criança a vontade de continuar aprendendo?
Foi com essa provocação que José Motta conduziu a segunda palestra do dia no Data Science Summit Brasil 2026. Sua apresentação partiu dos desafios da educação para abordar as mudanças no mundo do trabalho, o avanço da inteligência artificial e a necessidade de preparar as novas gerações para ir além do conhecimento disponível.
Motta chamou a atenção para o desafio enfrentado pelas instituições de ensino, que buscam maneiras de manter o interesse dos estudantes em um mundo no qual a informação está a poucos cliques de distância. Não basta transmitir conhecimento: é preciso estimular a curiosidade, o pensamento crítico e a vontade de aprofundar o aprendizado.
Como exemplo, apresentou a história de um jovem indiano chamado Sidarta, que, aos 14 anos, teria desenvolvido uma inteligência artificial capaz de detectar problemas cardíacos em 17 segundos. O caso serviu de ponto de partida para uma questão provocadora: como convencer um jovem de que vale a pena continuar estudando durante anos quando ele já consegue desenvolver algo com potencial de contribuir para a humanidade?
A reflexão aponta para uma questão central da educação contemporânea: mais do que oferecer respostas, é preciso ensinar a fazer perguntas, investigar e ampliar as próprias capacidades.
Da ideia à transformação
Ao longo da apresentação, Motta destacou que ter uma ideia é apenas o começo. O valor está na capacidade de colocá-la em prática, construir protótipos, encontrar parceiros e investidores e transformar uma possibilidade em algo que produza resultados.
Nesse contexto, mencionou ferramentas de inteligência artificial voltadas à pesquisa científica, como o Google AI Co-Scientist, e recursos de pesquisa aprofundada, mostrando como essas soluções ampliam as possibilidades de investigação e descoberta.
Inovar exige disposição para experimentar, aprender e transformar conhecimento em ação. É o movimento que permite sair do zero, chegar ao primeiro resultado concreto e, a partir dele, avançar.
O trabalho em transformação
Um dos momentos marcantes da palestra foi a exibição de cenas de Tempos Modernos, filme de Charles Chaplin lançado em 1936. Mesmo quase um século depois, a obra permanece atual ao retratar trabalhadores submetidos ao ritmo mecânico da produção industrial.
A referência estabeleceu um paralelo entre a mecanização do passado e as transformações provocadas pela inteligência artificial e pela robótica. Motta observou que muitas organizações ainda mantêm profissionais concentrados em tarefas repetitivas que já podem ser automatizadas.
O palestrante também apresentou exemplos de empresas em que a automação substituiu postos de trabalho. Ao mesmo tempo que algumas funções desaparecem, cresce a demanda por profissionais preparados para lidar com novos processos e desafios. A falta de qualificação específica, segundo ele, dificulta o preenchimento de vagas em setores que incorporam essas mudanças.
Durante a apresentação, uma frase projetada no telão sintetizou essa reflexão: “Pare de contratar humanos”, dizia a mensagem em letras grandes. Em letras menores, vinha a explicação: “para fazer trabalhos que eles não querem fazer”.
A provocação convida a repensar a distribuição das atividades nas organizações, reservando às máquinas as tarefas repetitivas e abrindo espaço para criatividade, julgamento e iniciativa.
O entusiasmo como força para inovar
Ao falar sobre o futuro dos negócios, Motta destacou que estratégias, ferramentas e investimentos precisam estar associados à capacidade de mobilizar equipes e transformar planos em resultados. “Os negócios se fazem com dedicação e entusiasmo”, afirmou, convidando o público a refletir sobre uma questão simples e direta: o que cada um tem feito no trabalho que realmente o impacta?
A pergunta desloca o olhar da novidade tecnológica para a inovação como atitude. Em um ambiente de mudanças aceleradas, permanecer relevante significa continuar aprendendo, questionar práticas estabelecidas e buscar maneiras de contribuir com a sociedade.
Para isso, é necessário aproximar dois mundos: o da ciência, que investiga, questiona e produz conhecimento, e o da tecnologia, que permite aplicar esse conhecimento para resolver problemas. Essa conexão é fundamental para que descobertas se convertam em soluções concretas.
O especialista relacionou o momento atual às grandes mudanças provocadas pela máquina a vapor, que alteraram profundamente a indústria e as relações de trabalho. A inteligência artificial representa uma nova etapa dessa transformação, exigindo adaptação e novas competências.
As habilidades para o futuro
Ao abordar as exigências do mundo do trabalho, o palestrante destacou competências como pensamento crítico, comunicação, criatividade e capacidade de trabalhar em equipe, além da importância crescente do letramento em inteligência artificial.
Essas habilidades mostram por que a preparação para o futuro não pode se limitar ao domínio de ferramentas. É preciso saber formular perguntas, avaliar respostas, colaborar e identificar como aplicar o conhecimento diante de diferentes situações.
A inovação, nessa perspectiva, não significa apenas criar algo inédito. Significa desenvolver a capacidade de encontrar novos caminhos e responder às necessidades de uma sociedade em transformação.
Sonhar com os pés no chão
Ao encerrar a palestra, Motta compartilhou uma frase que, segundo contou, ouviu do avô: “Pé no chão, cabeça nas nuvens”.
A expressão sintetizou o espírito de sua apresentação. Os pés no chão representam a dedicação necessária para transformar ideias em projetos reais. A cabeça nas nuvens simboliza a liberdade de imaginar, questionar limites e acreditar em possibilidades que ainda não se concretizaram.
O palestrante também compartilhou sua expectativa de receber, no próximo ano, um prêmio na área de educação em Dubai, relacionando essa perspectiva à importância de sonhar e trabalhar para realizar. Seu convite final foi para que cada pessoa reconheça o que pode fazer de extraordinário e comece a construir esse caminho. Em um evento dedicado à ciência, aos dados e às tecnologias emergentes, ficou uma reflexão: o futuro não depende apenas do que somos capazes de desenvolver, mas também da disposição para aprender, imaginar e transformar possibilidades em realidade.
Conteúdo produzido por Básica Comunicações
Fotos: Marco Antonio Tavares